Marionetes e marionetistas
Eu vim me equilibrando na linha do meio-fio. Parei na frente da casa. A porta se abriu. No buraco escuro e vazio a que deu lugar apareceu uma enorme cabeça, banhada por uma luz intensa, movendo os lábios como se alguém lá dentro, exímio marionetista, lhe dessa vida através de finos fios de seda cortando a penumbra do ar. A rua estava vazia. Havia apenas um silêncio acompanhado do murmúrio do rio resvalando nas colunas da ponte. Depois, a cabeça sussurrou algumas palavras que
Carta fora do baralho
Estou dentro de um pensamento pensando. Há um cubículo e pelas paredes lisas vazam cartas de baralho que se misturam umas nas outras quase grudadas; é difícil escolher uma. É preciso me inclinar com a cabeça voltada para trás e deixar que o fluxo de naipes escorra pela minha garganta. Depois disso nada faz sentido e “eu tenho o tarô inteiro à minha disposição entre os meus dentes”, eu penso. É preciso acusar os cretinos de plantão lá fora que dizem que eu usurpei as cartas e
Guêthie, o anjo exterminador
Eu estava na porta do meu prédio dando o último trago no cigarro e olhando os carros que passavam em disparada na direção do rio. As luzes dos faróis me incomodavam ao cortar o ar escuro e denso da noite e espocar dentro dos meus olhos sonolentos. “Que esses carros despenquem lá de cima da ponte e desapareçam no fundo do rio”, eu fiquei pensando, sentindo o gosto amargo do cigarro na minha boca. Joguei a guimba no chão e pisei nela com o sapato fazendo movimentos circulares c
O plano
Estávamos descendo a estradinha do morro das orquídeas. Uns fiapos de nuvens surgiam de repente sobre as nossas cabeças, faziam um...
A arte que liberta
“A arte nos liberta da realidade atroz”, eu vim pensando enquanto descia a rua. Contemplava com profunda melancolia a sordidez da...




