Uma lufada de vento na janela
Desci a escada me desviando dos vultos que vinham do outro lado como uma pequena avalanche na minha direção. Mesmo com o esforço que eu fazia para me desvencilhar às vezes uma daquelas manchas negras perdidas dentro do escuro me atingia em cheio, ou, pelo menos, me fazia desequilibrar e errar o passo que eu dava para atingir o próximo degrau me deixando prestes a me espatifar no mármore áspero do chão. “Eu crio estórias. É isso que faço aqui. Escrevo estórias para serem lidas
Morando dentro do conto
Vou escrever um conto e viver dentro dele. Andar pelas ruazinhas da pequena cidade que ele comporta; virar uma esquina, deter-me na portaria do pequeno prédio, subir as escadas até o terceiro andar. Girar a chave na porta e entrar. Vou andar até a escrivaninha debaixo da janela e começar a escrever um conto. “Oblose morava na rua da ponte e costumava vir à tarde na minha casa me importunar. Na verdade passava as tardes inteiras me incomodando com suas ideias idiotas. Eram dis
Acidade sobre o abismo
Numa das minhas viagens por esses vilarejos remotos, durante uma convalescença, adquiri o vício da escrita; atividade absorvente e inútil; “a aranha tece a teia sem esperança de capturar sua presa.” Depois de contrair tal enfermidade tive que abandonar o hábito de vagar pelo continente insólito e estabelecer uma eficaz rotina de literato de subúrbio. Passei a construir pequenas vilas de papel e tinta, ainda mais remotas do que aquelas que eu havia percorrido; como um incansáv
A Vila da Poeira
“Hei!, hei!”, eu ouvi a voz atrás de mim. Virei-me e uma cabeça muito grande se aproximava. Uma boca desenhada por enormes lábios vermelhos se abriu diante dos meus olhos estarrecidos. “Sabe onde fica a casa do escritor recluso?”, a boca perguntou. “Já ouvi falar desse escritor maldito mas nunca soube onde fica a sua casa”, eu respondi de uma maneira meio dissimulada. Passou-se um instante. A imensa boca voltou a falar: “Aqui não é a Vila da Poeira?”, “Não sei onde fica essa
Fantoches adormecidos
Fui encarregado de escrever um livro que mudará o mundo. As pessoas precisam disso e alguém com muito dinheiro paga aos homens de imaginação para escreverem livros assim. É isso que faço neste quarto de hotel. Curiosamente não sei quem me contratou. Escrevo um monte de asneiras e o emissário desse misterioso mecenas me diz que o meu trabalho está perfeito; amanhã o mundo será feito à imagem e semelhança do meu livro estapafúrdio. À tarde quando termino o meu trabalho o emissá




