A Vila da Poeira
“Hei!, hei!”, eu ouvi a voz atrás de mim. Virei-me e uma cabeça muito grande se aproximava. Uma boca desenhada por enormes lábios vermelhos se abriu diante dos meus olhos estarrecidos. “Sabe onde fica a casa do escritor recluso?”, a boca perguntou. “Já ouvi falar desse escriba apócrifo mas nunca soube onde fica a sua casa”, eu respondi de uma maneira meio dissimulada. Passou-se um instante. A imensa boca voltou a falar: “Aqui não é a Vila da Poeira?”, “Não sei onde fica essa
Fantoches adormecidos
Fui encarregado de escrever um livro que mudará o mundo. As pessoas precisam disso e alguém com muito dinheiro paga aos homens de imaginação para escreverem livros assim. É isso que faço neste quarto de hotel. Curiosamente não sei quem me contratou. Escrevo um monte de asneiras e o emissário desse misterioso mecenas me diz que o meu trabalho está perfeito; amanhã o mundo será feito à imagem e semelhança do meu livro estapafúrdio. À tarde quando termino o meu trabalho o emissá
Um olho pensando
Querem que eu pense. Há pensamentos por toda parte e é preciso que eu os reproduza de alguma forma; apenas não querem que eu pense os meus próprios pensamentos. Abro a porta da sala e saio para o alpendre. Fico entre as pilastras de cores vibrantes pensando. Atravesso o pequeno jardim sentindo o perfume intenso das rosas. Abro o portãozinho, saio para a rua e vou refletindo sobre esse tema. Eu sei que é impertinente da minha parte esse tipo de coisa; sair pela calçada desaten
Artefatos suspensos
Mandaram construir a torre na beira do rio. O canal fora rasgado na areia escaldante um ano antes quando, por fim, instalaram a comporta. No momento exato em que a água atinge o volume máximo a barragem se abre e arrasta tudo com uma inconcebível virulência. Os construtores, mal terminada a obra, desapareceram sem deixar vestígios. Ficou a torre com suas celas dispostas de ambos os lados de intermináveis corredores. Depois de tudo pronto começaram a chegar os prisioneiros.
O décimo terceiro anjo
O gato estava na janela olhando as sombras da noite indo e vindo de um lado pro outro da rua. O seu olhar desolador sobre aquelas figuras atormentadas justificava o nome do filósofo com o qual lhe nomeei: “Schopenhauer.” Aquela semana se revelava especialmente difícil o que acentuava a minha adesão ao pensamento amargo do filósofo que se isolara do mundo tendo como companhia apenas o seu cão. “Eu fiz o mesmo”, eu penso, “apenas com a singela diferença de que o animal que me a




