Memórias de um rato
- Daniel S. Santos
- 10 de dez. de 2024
- 4 min de leitura
Meu nome é Godofredo Malaquias. Sou um rato e escrevo aqui as minhas memórias.
Muitos não acreditarão em mim por imaginar inconcebível um escritor roedor, ou, um roedor escritor, como queiram. Mas o que estou dizendo pode ser tomado como a mais pura verdade; não se trata de figura de linguagem, eufemismo ou artimanha de autor. E garanto que isso o leitor vai perceber ao usufruir desta narrativa, se tiver a condescendência de levar a sua leitura até o final.
Sou um rato banido da sociedade dos ratos, é bem verdade, mas, que nem por isso deixou de ser, na sua essência, um asqueroso camundongo.
Por motivos que talvez me revelem um dia fui privado da convivência dos meus semelhantes, e só por isso escrevo estas linhas.
Abandonado à própria sorte na cidade de casas velhas e tortas, impossibilitado de absorver os costumes que me eram naturais, passei a espicaçar com atenção o cotidiano dos homens.
Com o tempo adquiri habilidades humanas, uma delas, a escrita. Só assim pude redigir estas linhas que de forma um pouco presunçosa e excessiva qualifiquei de ´´memórias.´´
E parece que sou um rato atípico. Em muitos aspectos sou diferente deles. O meu tempo de vida, por exemplo, é muito mais dilatado do que o de um roedor comum; vivo o mesmo que uma tartaruga, eu acho. Com esse tempo extra pude compreender, através dos anos, o funcionamento desta cidade de casas velhas e tortas.
Claro, o meu cérebro não é tão desenvolvido quanto o de um homem. Entretanto os longos anos de reflexão impostos pelo meu exílio deram-me uma incrível capacidade dialética. Até mesmo um citadino culto teria grandes dificuldades em travar um debate comigo se isto me fosse concedido.
Esta geração de roedores já não se lembra dos obscuros processos que levaram à minha exclusão. E nas poucas vezes que alguns deles me encontram num trecho de caminho, olhando fixamente em minha face, mal podem distinguir um semelhante. Prosseguem pela trilha cavada no concreto com um semblante atônito, deixando-me, mais uma vez, entregue à minha solitudine e às mais profundas reflexões. “É, alguém que vive afastado de tudo e de todos é a alma do mundo”, eu pensei.
Como podem ver um rato pode até mesmo ser um filósofo.
Com o tempo descobri caminhos entre as pedras e os velhos tijolos, reentrâncias, canais, galerias e palácios abandonados, um sistema completo de aquedutos, salões ornados com grandes murais; uma cidade que tinha a mim como seu único habitante. Uma cidade encravada nas entranhas da outra.
Nessa arquitetura vedada aos homens e aos ratos eu circulava; observava a outra cidade sem ser importunado. Assim pude estabelecer uma clara visão dessa urbe paralela; ratos e homens ingenuamente acreditando habitar a única cidade possível.
Num dia, ouvi um ruído distante. Dos ocos e das tubulações me chegavam o murmúrio da multidão. Levada pelo torvelinho minha mente começou a vagar por paragens distantes. Pensei nas outras vidas que eu poderia ter vivido. Eu poderia ter me dedicado à política, aos empreendimentos comerciais ou à qualquer dessas atividades que nos colocam no centro das atenções e fazem os nossos sentidos se diluírem na infinidade das coisas. Assim eu experimentaria as sensações intensas, conheceria a vaidade de proporcionar alegria às multidões, sentiria um intenso prazer ao ver o sorriso estampado em seus rostos crédulos, ou, um pouco estarrecido, contemplaria o desespero e o medo refletidos nos seus olhos quando eu exercesse a minha crueldade.
Mas depois de todos esses anos de reflexão eu sabia que um rato não deveria se ocupar desses assuntos; correr entre os arbustos fingindo se esconder dos pingos das primeiras chuvas deveria ser o seu único prazer.
Quando despertei do meu devaneio o rumor da multidão havia se extinguido. Das tubulações um silêncio atroz chegava até os meus ouvidos.
Num dia, perdido em pensamentos inúteis, imaginei que um rato pode muito bem espionar a vida dos poderosos; se esgueirar entre os móveis dos escritórios sem ser percebido, vasculhar os seus papéis e inteirar-se das falcatruas dos negócios e da política; isto é perfeitamente possível, e poderia contribuir com as causas sociais, o que me daria algum prestígio. Mas todo pensamento inicial vem carregado de defeitos. Investigando melhor, eu já era quase um catedrático em filosofia, cheguei a conclusão de que um rato jamais poderia tornar-se um delator. Ninguém daria crédito às palavras de um rato convertido em juiz mordaz da ética e da moralidade. Da mesma maneira que para um homem do poder a minha verve literária não tem a menor importância. O senhor prefeito, por exemplo, ao conhecer os meus dons certamente os desprezaria; Ao ler os meus escritos e perceber a sua profundidade peculiar desdenhosamente me consideraria um rato; Bem, nesse caso ele estaria coberto de razão.
O meu modo de vida determina o tipo de descrição que faço da cidade. Numa noite sem lua, vista de cima das montanhas que a rodeiam ela seria outra. As luzes vacilantes escapando das janelas irregulares, as miríades de chispas luminosas riscando o céu escuro me dariam uma outra imagem dela; as casas velhas e tortas desapareceriam num abismo escuro emitindo um brilho estranhamente irreal.
O êxtase dessa visão me revelaria a intensidade do sentimento religioso; mais isto eu aprenderia dos homens.
Porém um rato não cria seitas, instituições, nem mesmo constrói catedrais ornadas com altares deslumbrantes. Apenas caminha contrito, quando em estado de graça, pelos ocos e reentrâncias: Nota-se em seus olhos um brilho intenso, como se contemplassem o infinito.
Contorno um abaulado biombo. Na outra direção surge um pequeno grupo dos meus semelhantes; passam sem me ver passar. Entro por um pequeno túnel que desemboca, inesperadamente, num enorme coreto onde a orquestra toca o foxtrot e uma infinidade de pernas e pés me escorraçam.